Entenda como uma empresa que dizia ter uma dívida líquida relativamente modesta apareceu com um passivo mais de dez vezes maior

Vinícius Pinheiro
19 de agosto de 2026
Fachada de loja da Casas Bahia – Imagem: Wikimedia Commons/Carina CaracolQuando a Casas Bahia (BHIA3) entrou com o pedido de recuperação judicial, um número chamou a atenção do mercado: R$ 17 bilhões. Esse é o valor do passivo da tradicional varejista fundada por Samuel Klein.
O problema é que, 24 horas antes, a companhia havia divulgado um balanço que apontava uma dívida líquida ajustada de apenas R$ 1,2 bilhão.
O valor equivale a metade do Ebitda, o indicador que mede a capacidade de geração de caixa de uma empresa. Esse é um nível considerado confortável, ainda mais porque apenas um ano atrás a dívida da varejista era mais de duas vezes maior que o Ebitda.
Foi aí que surgiu a dúvida em parte dos investidores. Afinal, como uma empresa que dizia ter uma dívida líquida relativamente modesta apareceu com um passivo mais de dez vezes maior da noite para o dia?
Antes de mais nada, cabe um esclarecimento importante: a Casas Bahia não escondeu os números no balanço. Passivo e dívida medem coisas diferentes, e a diferença entre os números não indica, por si só, inconsistência contábil ou irregularidade.
De todo modo, o caso mostra também por que empresas de varejo estão entre as mais difíceis de analisar na bolsa. Mesmo antes de o grupo entrar em recuperação extrajudicial pela primeira vez, investidores questionavam a forma como o setor contabiliza o endividamento.
Os R$ 17 bilhões que a Casas Bahia informou como passivo na recuperação judicial representam um universo muito mais amplo de obrigações financeiras e operacionais que a varejista espera renegociar.
Leia a seguir como R$ 1,2 bilhão “se transformaram” em R$ 17 bilhões. Lembrando que essa é uma reconciliação aproximada, apenas para fins didáticos.
O primeiro passo: recolocar o caixa na conta
A própria definição de dívida líquida já explica uma parte da diferença. Por definição, ela é igual à dívida bruta menos o caixa e os ativos financeiros.
Assim, para sair de R$ 1,2 bilhão e voltar ao endividamento bruto ajustado da companhia, precisamos recolocar na conta o que a Casas Bahia considera como caixa e aplicações que podem virar dinheiro facilmente.
O resultado é uma dívida bruta ajustada próxima de R$ 4,1 bilhões.
A peça mais importante do quebra-cabeça: fornecedores
Até aqui, saímos dos R$ 1,2 bilhão de dívida líquida para algo próximo de R$ 4,1 bilhões de dívida bruta ajustada.
Mas a maior diferença entre esse número e os R$ 17 bilhões informados na recuperação judicial aparece em outra linha do balanço: os fornecedores.
O que o caso ensina ao investidor
O episódio da Casas Bahia é um lembrete de que olhar apenas para dívida líquida ou alavancagem pode ser insuficiente, especialmente em empresas de varejo.
Embora a dívida líquida ajustada da empresa fosse de apenas R$ 1,2 bilhão, o balanço consolidado revelava uma estrutura financeira muito mais pesada.
Os números do passivo total também indicam uma dependência do ciclo de juros ainda maior do que revela a dívida líquida. E, com a Selic nas alturas, as restrições ao crédito aumentaram.
Tanto que o aumento do passivo via fornecedores foi uma das formas da varejista manter as operações, junto com a redução da estrutura via fechamento de lojas e demissões.
Em outras palavras: os R$ 17 bilhões não surgiram da noite para o dia. Eles já estavam espalhados pelo balanço. O que mudou com a recuperação judicial foi a forma de olhar para eles. A Casas Bahia vale hoje aproximadamente R$ 450 milhões na B3, uma fração do passivo que tenta reorganizar por meio da recuperação judicial. A comparação ajuda a dimensionar o tamanho da tarefa que a companhia terá pela frente
Vinícius Pinheiro
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