Pasquale Augusto
30 set 2026

Após integrar cana e milho, usinas de etanol podem avançar para confinamentos, aproveitando coprodutos e diversificando receitas. (Foto: Stefano Guidi/Getty Images)
A integração entre cana e milho pode ganhar um terceiro componente nas usinas de etanol: o confinamento de bovinos. Para João Rosa, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, incorporar a pecuária é um caminho para ampliar o aproveitamento dos coprodutos e diversificar as fontes de receita do negócio.
“O negócio (do etanol de milho) para em pé hoje não pelo preço do etanol, mas sim pelo DDG e óleo. 30% da receita vem desses coprodutos agregados. É um complexo que vai para dar certo. Se o próximo passo das usinas de cana é anexar uma destilaria de etanol de milho para aproveitar o vapor integrado, o próximo passo depois disso é montar um confinamento. Por que não integrar a cadeia como um todo?”, questionou durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, na 9ª Conferência Nova Cana.
A proposta acrescenta uma etapa à integração industrial: aproximar a produção de etanol da atividade que pode consumir seus coprodutos na alimentação animal. É o caso do DDG, sigla em inglês para grãos secos de destilaria.
Há um ano, o CEO da Minerva Foods (BEEF3), Fernando Queiroz, destacou que o etanol de milho é transformacional para a pecuária. Na ocasião, o debate abordou como a maior disponibilidade desses coprodutos ajuda na terminação dos animais.
Segundo Rosa, alguns grupos já se movimentam em direção à integração com confinamentos, incluindo cooperativas. O objetivo é ampliar as fontes de receita e reduzir a dependência de um único produto em um momento de expansão da oferta de etanol.
“São modelos que dão muito certo. Aí você vai diversificando a cadeia, às vezes você perde uma coisa, ganha outra. Ficar em um só produto, ‘colocar todos os ovos na mesma cesta’ é o maior risco”, afirmou.
Segundo Andy Duff, do Rabobank, o DDG vem ganhando espaço tanto no mercado doméstico quanto nas exportações, contribuindo para diversificar as matérias-primas disponíveis à alimentação animal e para os resultados das usinas.
Antes do confinamento, a integração entre etanol de cana e milho
A lógica começa dentro da própria usina. Incorporar o processamento de milho a uma operação de cana permite aproveitar o bagaço como fonte de energia e, conforme o projeto, compartilhar equipamentos, mão de obra e infraestrutura.
Em entrevista ao Money Times, Duff explicou que a necessidade de comprar biomassa é uma preocupação principalmente das plantas dedicadas exclusivamente ao milho, chamadas de full. Para as operações anexas às usinas de cana, a disponibilidade de bagaço oferece uma vantagem competitiva.
“Quando você tem milho e cana juntos, a biomassa é problema resolvido. É um menor custo significativo, mas não é uma diferença entre quebra e sobrevivência quando olhamos apenas para plantas full”, explica.
Duff cita São Martinho (SMTO3) e Cargill como exemplos desse aproveitamento, por meio de suas plantas flex. Ele ressalta, porém, que as grandes unidades dedicadas exclusivamente ao milho também se beneficiam de escala e ganhos de eficiência.
O desafio bilionário da biomassa
Segundo um estudo recente do Itaú BBA, a capacidade instalada de produção de etanol de milho no Brasil deve passar de 10,9 bilhões de litros, em 2025, para 25,3 bilhões, em 2030, avanço de 132%. Esse crescimento exigiria uma ampliação expressiva da oferta de biomassa.
Em Mato Grosso, a expansão das florestas de eucalipto para atender à demanda projetada exigiria investimentos estimados em R$ 7,6 bilhões. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, a conta poderia alcançar R$ 14,3 bilhões.
- Leia também: Etanol de milho cresce, mas enfrenta desafio bilionário com biomassa; solução está na cana-de-açúcar?
Para as usinas de cana que dispõem de bagaço excedente, há uma escolha econômica: utilizá-lo para gerar eletricidade destinada à rede, vender a própria biomassa ou direcionar energia ao processamento de milho. A decisão depende do retorno e dos investimentos exigidos por cada alternativa.
Duff pondera que, embora os projetos de integração continuem no radar das empresas, o cenário do setor e os juros elevados dificultam novos investimentos no curto prazo.
Mais produtos, melhor aproveitamento da estrutura
Para Werner Roger, CIO da Trígono Capital, combinar as atividades permite aproveitar melhor a estrutura industrial ao longo do ano e reduzir a dependência de biomassa comprada de terceiros.
Em novembro de 2025, Roger já havia classificado os riscos das operações de etanol de milho sem integração com a cana como uma “bomba-relógio armada”. O alerta incluía tanto o encarecimento da biomassa quanto a possibilidade de o milho subir sem uma valorização equivalente dos combustíveis.
“Sigo vendo esse problema para o etanol de milho e acho muito arriscado ter uma usina só de etanol de milho. A melhor solução é aquela que você tem cana consorciada. Se eu tiver açúcar, etanol de cana e etanol de milho, é a melhor solução”, disse em conversa recente com o Money Times.
Na avaliação de Roger, essa combinação permite utilizar a biomassa da própria cana para fornecer energia ao processamento do milho e ampliar o período de uso dos equipamentos, já que a safra canavieira ocupa cerca de sete a oito meses do ano. A operação também preserva a flexibilidade de direcionar mais cana à fabricação de açúcar quando os preços forem favoráveis.
O gestor vê espaço principalmente para acrescentar o processamento de milho às usinas de cana existentes. Nessas unidades, parte da energia hoje vendida à rede poderia ser consumida na produção adicional de etanol, conforme o retorno de cada alternativa.
A vantagem também aparece no investimento. Ao ampliar uma operação existente, a empresa pode aproveitar equipes, equipamentos, manutenção e infraestrutura logística, reduzindo o desembolso em comparação com uma unidade construída do zero, conhecida como greenfield.
“Meu investimento adicional ele é muito menor do que o Greenfield”, disse Roger. “Fazer uma usina nova Greenfield é muito mais caro do que um Brownfield usando uma estrutura que eu já tenho.”
Outro fator é a proximidade do mercado consumidor. Roger destaca que produzir no Sudeste pode reduzir a necessidade de transportar etanol de Mato Grosso e Goiás para a região. Ao mesmo tempo, avalia que o crescimento da demanda pelo milho e as melhorias nas rotas de exportação podem diminuir a vantagem de preço do grão no Centro-Oeste.
Para o gestor, a combinação desses fatores favorece o modelo que chama de “plantas flex híbridas”: cana, milho e açúcar integrados, com melhor aproveitamento da estrutura e diferentes alternativas de produção.
É a partir dessa lógica de diversificação que Rosa propõe avançar para o confinamento: além de combinar matérias-primas e produtos dentro da usina, incorporar à operação uma atividade que aproveite os coprodutos do milho.

Por Pasquale Augusto
Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.



