A Selic cai, o risco sobe: o paradoxo do ciclo de cortes do Copom

A Selic cai, o risco sobe: o paradoxo do ciclo de cortes do Copom

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Mesmo após o corte da Selic para 14,50%, juros longos dispararam, fluxo estrangeiro perdeu força e o mercado passou a exigir prêmio maior para carregar risco brasileiro


Por Marco Saravalle25/05/2026 |

O corte da Selic não foi suficiente para aliviar a percepção de risco no Brasil. Curva longa abriu, capital estrangeiro desacelerou e investidores passaram a cobrar prêmio maior diante de incertezas fiscais, inflação e cenário global. (Imagem: Adobe Stock)
O corte da Selic não foi suficiente para aliviar a percepção de risco no Brasil. Curva longa abriu, capital estrangeiro desacelerou e investidores passaram a cobrar prêmio maior diante de incertezas fiscais, inflação e cenário global. (Imagem: Adobe Stock)

Em abril, os vértices longos da curva de juros abriram em torno de 70 pontos-base mesmo após o Copom reduzir a Selic para 14,50%. O mercado aceita o pivô, mas cobra prêmio crescente para travar capital de longo prazo no Brasil.

Houve um corte que parte do mercado não acreditou. Enquanto o Copom reduzia a Selic para 14,50% e sinalizava continuidade do ciclo, a curva de juros futura desenhou em abril o movimento oposto. A ponta curta cedeu poucos pontos-base, acompanhando a decisão, mas os vértices longos, justamente os que incorporam risco fiscal e inflação de médio prazo, avançaram em torno de 70 bps. A leitura é direta: ancorar posições com vencimentos em 2029, 2032 ou 2036 está custando cada vez mais caro.

Os fluxos da indústria de fundos confirmam o desconforto. Segundo dados da Plataforma DataBay, em abril, a renda fixa captou R$ 14,2 bilhões líquidos, elevando o acumulado de 2026 para R$ 127,7 bilhões, ritmo raramente visto fora de janelas de aperto extremo. Os multimercados, em contraste, fecharam o mês com saída de R$ 5,6 bilhões e estão praticamente zerados no ano. Os fundos de ações tiveram inflexão em março e novo resultado positivo em abril, mas o saldo de 2026 segue negativo em R$ 5,4 bilhões. Com juros reais próximos de 10%, o investidor doméstico continua escolhendo o que paga sem cobrar tese.

 

Na B3, a dicotomia conhecida ganhou um elemento novo: o capital externo está desacelerando. O ritmo do estrangeiro veio encolhendo mês a mês: R$ 26,3 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bi em fevereiro, R$ 11,7 bi em março. Em abril, foram apenas R$ 3,2 bilhões. O fluxo continua positivo, mas a curva de retração é evidente. No acumulado, foram R$ 56,5 bilhões. Do outro lado, o institucional doméstico segue sangrando, com mais R$ 9,4 bilhões de saída no mês e R$ 49,7 bilhões em 2026. A pessoa física se neutralizou. A renda variável brasileira depende, na margem, de um capital externo que está perdendo apetite.

A inclinação que se abriu na curva longa não é detalhe técnico. É o termômetro mais sensível da percepção de risco fiscal sobre o país. Em março, os papéis com vencimentos entre 2029 e 2036 rendiam de 13,30% a 13,45%; em abril, passaram a operar entre 14,05% e 14,17%, alta média de 74 pontos-base na barriga e na cauda. Enquanto isso, o IPCA-15 de abril veio em 0,89% no mês e a leitura de doze meses subiu de 3,9% para 4,4%. A alimentação no domicílio avançou 1,77%, e os preços domésticos da gasolina mantêm defasagem de cerca de 50% frente à paridade internacional, segundo a Abicom. A inflação importada ainda não chegou, mas está no caminho.

 

Some-se tudo isso ao quadro externo. Há dois meses, Estados Unidos, Israel e Irã permanecem em confronto direto, e o Estreito de Ormuz, rota de cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, segue bloqueado à navegação convencional. O Brent fechou abril próximo de USD 111/bbl, e a projeção do UBS aponta preço médio acima de USD 85/bbl até março de 2027. Não é pico passageiro, é choque estrutural de oferta. Nos Estados Unidos, o ISM Manufacturing de abril registrou preços pagos em 84,6, o maior patamar desde maio de 2022, e o FED preservou a banda de 3,50% a 3,75% com quatro dissidências. A troca de Jerome Powell por Kevin Warsh injeta uma camada extra de incerteza institucional.

A síntese é dura para o discurso oficial. O Banco Central tem instrumento para cortar a Selic – só não tem para cortar o risco. Com déficit nominal beirando 9% do PIB, dívida bruta projetada para 84% até dezembro, pressão da inflação importada e mudança de comando no Fed, a curva longa já está precificando o que ainda não foi admitido em comunicação. Para o investidor, os dados de abril deixam pouca margem para ambiguidade: neste ciclo de cortes, o que protege o capital não é a tese do Banco Central, é a leitura honesta dos vértices longos.

Fonte :   Estadão

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