Juliana Caveiro
19 maio 2026,

(Imagem: iStock/ designer491)Os rendimentos dos títulos do tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasury Bonds, dispararam nesta terça-feira (19), em meio ao aumento das preocupações do mercado com uma possível reaceleração da inflação global, impulsionada principalmente pela alta recente do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio.
O movimento levou os bonds de longo prazo a níveis historicamente elevados. O rendimento do Treasury de 30 anos chegaram a 5,19%, maior patamar desde 2007. Já o Treasury de 10 anos, considerado referência global para crédito, hipotecas e ativos de risco, foram para 4,68%, atingindo o maior nível desde janeiro deste ano.
Os yields dos Treasuries se movem de forma inversa aos preços dos títulos. Na prática, a disparada indica uma forte venda de títulos públicos americanos por parte dos investidores, diante da percepção de que a inflação pode permanecer elevada por mais tempo e dificultar cortes de juros pelo Federal Reserve.
A pressão sobre os juros ganhou força após a valorização do petróleo nas últimas semanas, em meio ao conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. O mercado teme que os custos mais altos de energia contaminem os índices de inflação global, afetando desde combustíveis até cadeias produtivas e preços ao consumidor.
Em análise publicada nas redes sociais, a economista do UBS Global Wealth Management no Brasil, Solange Srour, afirmou que o mercado de bonds está enviando “um sinal difícil de ignorar”. Segundo ela, o movimento atual representa um “repricing global coordenado”, refletindo a percepção de um cenário de inflação mais persistente.
A economista destacou que o fechamento do Estreito de Ormuz e a alta acumulada de cerca de 50% do petróleo desde o início do conflito elevaram a aversão ao risco global. Além disso, apontou que governos que durante anos se financiaram a juros próximos de zero agora enfrentam custos crescentes de captação, em um ambiente de aumento contínuo da dívida pública.
Segundo Srour, a dívida bruta global caminha para atingir 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2029, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao mesmo tempo, bancos centrais deixaram de atuar como compradores líquidos de títulos soberanos, reduzindo um importante suporte ao mercado de dívida global.
Títulos mais altos no mundo todo
O movimento não ficou restrito aos Estados Unidos. Os juros dos títulos soberanos também avançaram em outras grandes economias. Na Alemanha, o rendimento do título de 30 anos subia para cerca de 3,68%, enquanto o gilt britânico de mesmo prazo rondava 5,77%, atingindo os maiores níveis em décadas. No Japão, os yields dos títulos de 30 anos ultrapassaram 4% pela primeira vez na história.
O avanço simultâneo dos juros globais reacende preocupações sobre o impacto nas condições financeiras, no custo do crédito e nos mercados acionários. Nos EUA, a escalada dos Treasuries pressiona especialmente setores mais dependentes de financiamento, além de elevar os custos de empréstimos imobiliários, crédito ao consumidor e financiamento corporativo.
Para o Brasil, a economista alerta que o cenário também acende um sinal amarelo. Juros longos mais elevados nas economias desenvolvidas reduzem o espaço para cortes de juros em países emergentes e aumentam a sensibilidade dos mercados à condução fiscal e às expectativas de inflação.

Por Juliana Caveiro
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.



