Pesquisa mostra que a combinação de atrasos no cartão de crédito e no capital de giro responde por metade do montante devido

Carina Brito
14 de julho de 2026

Jovem segurando caneta com contas trabalhando para calcular dados de negócios, impostos, pagamento de contas, Começar a contar finanças. contabilidade, estatística e conceito de pesquisa analítica – Imagem: Khanchit Khirisutchalual/iStockA situação financeira da empresa e a do empreendedor costumam andar lado a lado — e, quando ambas entram no vermelho, o tamanho da dívida tende a crescer significativamente.
É o que mostra um levantamento da Serasa Experian, segundo o qual empresas e seus sócios principais simultaneamente inadimplentes acumulam R$ 80,6 bilhões em dívidas. Embora representem apenas 5,5% das pequenas e médias empresas (PMEs) analisadas, esse grupo concentra um volume expressivo de pendências financeiras.
O estudo integra a sétima edição do Panorama PME, boletim trimestral elaborado pela datatech a partir de uma base de 24,8 milhões de empresas com vínculo societário compatível. Foram consideradas empresas ativas com faturamento anual estimado de até R$ 300 milhões, e a inadimplência foi definida como atrasos iguais ou superiores a 30 dias nas modalidades de cartão de crédito e capital de giro.
Cartão e capital de giro concentram metade das dívidas
Entre as empresas e sócios que estão inadimplentes ao mesmo tempo, a maior parte do valor em atraso está concentrada em quem possui pendências simultâneas no cartão de crédito e no capital de giro. Nessa situação, o montante chega a R$ 40,3 bilhões, o maior entre todas as categorias analisadas.
Além disso, R$ 25,3 bilhões correspondem a atrasos exclusivamente no cartão de crédito e R$ 15 bilhões estão relacionados apenas a operações de capital de giro.
Segundo Cleber Genero, vice-presidente de Pequenas e Médias Empresas da Serasa Experian, os dados mostram uma forte associação entre a saúde financeira da empresa e a do empreendedor, mas não permitem concluir que uma situação seja a causa da outra.
“O que os dados mostram é que, quando empresa e sócio estão simultaneamente inadimplentes, há uma concentração expressiva dos valores em atraso. Isso sugere uma forte relação entre as finanças pessoais e empresariais, especialmente entre pequenos e médios empreendedores, mas não estabelece uma relação de causa e efeito.”
O executivo também ressalta que o estudo não permite afirmar que os empreendedores tenham recorrido ao crédito pessoal para financiar o negócio. Segundo ele, diferentes situações podem explicar essa relação.
Em alguns casos, o empreendedor pode utilizar crédito pessoal para sustentar a empresa. Em outros, dificuldades do negócio podem comprometer sua renda e capacidade de pagamento. Também é possível que problemas financeiros pessoais afetem a empresa. O levantamento, porém, não identifica qual desses movimentos ocorreu em cada caso.
Empresas mais antigas acumulam os maiores valores em atraso
A pesquisa também mostra que os maiores volumes financeiros estão concentrados em empresas mais maduras.
Negócios com 10 a 20 anos de atividade acumulam R$ 26,7 bilhões em crédito tomado e R$ 11,6 bilhões em atrasos nas modalidades de cartão e capital de giro.
Já as empresas com 5 a 10 anos de mercado registram R$ 26,1 bilhões em crédito tomado e R$ 13,5 bilhões em atrasos.
Embora as empresas entre 1 e 5 anos representem a maior parcela dos casos de inadimplência conjunta (38,6%), elas concentram R$ 16,3 bilhões em crédito tomado e R$ 9,7 bilhões em atrasos — valores inferiores aos observados entre negócios mais antigos.
Para Genero, uma possível explicação é o maior acesso dessas empresas ao mercado de crédito.
“Empresas mais maduras costumam operar em uma escala maior, manter um relacionamento mais amplo com o mercado de crédito e acessar limites mais elevados de financiamento. Com isso, quando enfrentam dificuldades financeiras, os valores envolvidos tendem a ser maiores do que os observados em empresas mais jovens.”
Comércio lidera os valores financeiros
Na divisão por setores, o estudo mostra que o segmento de Serviços reúne o maior número de ocorrências de empresas e sócios simultaneamente inadimplentes, respondendo por 48,8% dos casos.
Apesar disso, é o Comércio que concentra os maiores valores financeiros. O setor acumula R$ 35,3 bilhões em crédito tomado e R$ 16,1 bilhões em atrasos. Já as empresas de Serviços registram R$ 31,5 bilhões em crédito tomado e R$ 16 bilhões em pendências.
Nem toda empresa inadimplente tem sócio endividado
O levantamento também identificou outro grupo relevante: empresas inadimplentes cujos sócios permanecem com a situação financeira regular.
Esses casos representam 2,2% da base analisada e somam R$ 43,9 bilhões em dívidas.
Desse total, R$ 21,9 bilhões estão concentrados em empresas com atrasos simultâneos em cartão e capital de giro; R$ 12,4 bilhões referem-se apenas ao cartão de crédito; e R$ 9,6 bilhões dizem respeito exclusivamente ao capital de giro.
Já a maior parte das empresas analisadas (92,2%) não possui inadimplência nas modalidades avaliadas. Dentro desse grupo, 52,2% mantêm tanto a empresa quanto o sócio em situação regular, enquanto 40% têm sócios inadimplentes, apesar de a empresa não registrar atrasos.
Como evitar que as dívidas da empresa e do empreendedor se misturem
De acordo com a Serasa Experian, uma das principais formas de reduzir o risco de endividamento é manter uma separação clara entre as finanças pessoais e as da empresa.
Entre as práticas recomendadas estão:
- manter contas bancárias e fluxo de caixa separados entre pessoa física e empresa;
- planejar a contratação de crédito de acordo com a capacidade de pagamento do negócio;
- acompanhar regularmente indicadores como fluxo de caixa, faturamento e nível de endividamento;
- evitar utilizar crédito pessoal para cobrir despesas recorrentes da empresa sem planejamento;
- buscar renegociar dívidas nos primeiros sinais de dificuldade, antes que os atrasos se acumulem em diferentes modalidades de crédito.
Carina Brito
Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-graduação em Marketing e Mídias Digitais pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Trabalhou como repórter da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e já escreveu para Valor Econômico, Revista Galileu e UOL. Hoje é editora de Pequenas e Médias Empresas (PMEs), Carreira e ESG do Seu Dinheiro.



