Luiz Alberto Machado escreve: A Operação Condor

Luiz Alberto Machado escreve: A Operação Condor

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Luiz Alberto Machado[1]

 

Aproveitei a segunda-feira, dia 20, véspera de feriado, para ir ao cinema numa sessão vespertina, prática que pretendo repetir com mais frequência, usufruindo da disponibilidade de tempo propiciada pela aposentadoria. Fui atraído pelo nome do filme, que me remeteu à época dos regimes autoritários predominantes em boa parte dos países sul-americanos nas décadas de 1960, 1970 e início da de 1980.

 

O mundo vivia no período da chamada Guerra Fria, na qual a disputa pela hegemonia encontrava-se dividida entre duas superpotências: de um lado, as nações do bloco capitalista, lideradas pelos Estados Unidos; de outro, as nações do bloco socialista,  lideradas pela União Soviética. Tanto Estados Unidos como União Soviética procuravam expandir suas respectivas áreas de influência, fazendo uso de diferentes estratégias para manter os territórios sob seu domínio livres da ameaça do bloco rival.

 

Os países das Américas, com exceção de Cuba, estavam sob a influência norte-americana e em vários deles verificou-se, por períodos de tempo maiores ou menores, a existência de regimes autoritários adotados sob o pretexto de evitar a ameaça de socialização ou mesmo de regimes comunistas.

 

Lembro-me de ouvir na época que esses regimes tinham o apoio velado do governo dos Estados Unidos, por meio de um conjunto de ações denominadas “Operação Condor”.

 

Muitos anos depois, no primeiro semestre de 2013, ministrei um curso livre intitulado “O cinema e a redemocratização do Brasil e da América do Sul”, com o objetivo de chamar a atenção dos alunos dos diversos cursos da FAAP para uma realidade não tão distante, mas desconhecida de muitos deles.

 

A dinâmica consistia numa pequena introdução em que eu contextualizava a trama, seguida da transmissão do filme na íntegra e, ao final, um debate com a presença de um especialista e/ou um breve questionário. O segundo dos filmes do curso foi A história oficial, que focaliza a relação entre a igreja católica e o regime militar argentino. Nesse dia, enquanto os participantes respondiam o questionário, fui informado por uma das alunas que o argentino Jorge Mario Bergoglio acabava de ser proclamado como Papa, adotando o nome de Francisco.

 

Foi o suficiente para que o curso ganhasse uma inesperada repercussão, que exigiu inclusive instalações maiores para as sessões seguintes. Fizeram parte do curso 10 filmes, entre os quais Estado de Sítio, Pra frente Brasil, O dia em que meus pais saíram de férias, De amor e de sombrasO que é isso companheiro, Missing, Zuzu Angel e Batismo de sangue, além de A história oficial, mostrando experiências ocorridas no Uruguai, na Argentina, no Brasil e no Chile. O último filme do curso foi No, sobre o plebiscito realizado no Chile para decidir sobre a continuidade ou não do governo chefiado por Augusto Pinochet.

 

À medida que a bipolarização foi diminuindo, a própria Guerra Fria chegou ao fim, simbolizado pela queda do Muro de Berlim e pela desintegração da União Soviética. A partir daí, os Estados Unidos não viram mais razão para continuar apoiando os regimes autoritários e a política externa norte-americana passou a valorizar o respeito aos direitos humanos e a condenar a tortura e a violência. Não havia mais razão de ser da Operação Condor.

 

O filme A Operação Condor focaliza o trabalho de uma repórter de importante jornal brasileiro que, desconfiada das mortes num curto espaço de tempo e em situações não muito claras de dois ex-presidentes da República que estavam com os direitos políticos cassados, Juscelino Kubistchek e João Goulart, resolve investigá-las.

 

É muito interessante observar o funcionamento de uma redação da época, quase sempre num ambiente carregado de tensão, em que havia um relacionamento complicado entre jornalistas e repórteres, bem como a presença de um censor que era consultado para liberação ou não das matérias para publicação. Não menos interessante é a busca por informações com as limitações típicas de um período de comunicação lenta e, não raras vezes, inacessível.

 

Assistir ao filme, com magnífica interpretação de Mel Lisboa como protagonista, me permitiu reviver momentos inesquecíveis, razão pela qual o recomendo vigorosamente, tanto para os que testemunharam aquele período, como para quem não o viveu, mas tem interesse em conhecê-lo.

 

 

[1] Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM – Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e consultor da Fundação Espaço Democrático. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.

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