Por: ECONOMISTA JOSÉ RIBEIRO TOLEDO FILHO
Elementos básicos:
. Mercado mundial de açúcar
.Mercado interno de açúcar
.Produção de Etanol de milho
.Consumo de combustível ciclo otto
.Mistura de etanol anidro na gasolina C
Mercado mundial e interno de açúcar:
A produção mundial de açúcar foi de 181,9 milhões de toneladas métricas, na média do último triênio 2023/2025.
Nesse período, a produção de açúcar no Brasil, foi de 43,1 milhões de toneladas, na média do triênio, que representou 23,7% da produção mundial.
As exportações mundiais de açúcar foram de 64,1 milhões de toneladas e o Brasil participou com 34,4 milhões. Ou seja, no triênio indicado 53,7% das exportações realizadas, foram originadas do Brasil.
Por outro lado, o consumo per capita mundial de açúcar vem registrando pequena redução. O consumo que era de 22,2 kg per capita em 2010, caiu para 21,8 kg em 2025, registrando um pequeno decréscimo de 0,12% ao ano.
No Brasil, o consumo per capita é muito superior à média mundial porem também vem registrando pequena redução. O consumo per capita que era de 47,2kg na safra 2019/20, reduziu para 45,3 kg na safra 2024/25. Corresponde a uma retração de 0,82% anual. Temos que considerar no caso os efeitos da pandemia do Covid.
Esse panorama mundial e nacional demonstra que no segmento da produção de açúcar o setor produtivo tem pouca margem de manobra. No plano mundial o Brasil já é o maior exportador de açúcar representando mais de 50% do total das exportações, seguido pela Tailândia, Índia e Austrália.
No plano interno, o consumo per capita de açúcar já é muito elevado e com tendência de sistemática redução anual. Resta por consequência absorver o excedente do volume de cana produzido no mercado de etanol carburante e exportação.
Etanol de Milho:
A produção brasileira de cana de açúcar e seus derivados açúcar e etanol encontra-se estatisticamente estabilizada já há vinte anos. No decorrer desse período de tempo as variações de produção decorrem basicamente em função da produtividade industrial e agrícola e do mix de produção adotado pelas unidades produtoras. A produção modal de cana nesse período é da ordem de 650 milhões de toneladas.
Por outro lado, a produção de etanol utilizando a matéria prima milho tem registrado vigoroso crescimento conforme indicado na tabela a seguir:
Evolução da produção de etanol- valores em 1.000 m3
| Safras | Etanol cana | Etanol milho | Etanol total | Etanol milho % |
| 2020/21 | 29.954 | 2.581 | 32.535 | 7,93% |
| 2021/22 | 25.415 | 3.467 | 28.882 | 12,00% |
| 2022/23 | 26.761 | 4.432 | 31.193 | 14,21% |
| 2023/24 | 27.327 | 6.266 | 33.593 | 18,65% |
| 2024/25 | 29.062 | 8.190 | 37.252 | 21,99% |
| 2025/26 | 26.550 | 9.800 | 36.350 | 26,96% |
Como os preços recebidos pelos produtores de etanol de cana e de milho são determinados exclusivamente pelo mercado, variando em função de fatores logísticos, o crescimento vertiginoso já ocorrido na produção do etanol de milho, bem como a tendência de crescimento para as próximas safras de acordo com os projetos já em fase de implantação tem sua explicação nas margens de resultados econômicos obtidos pelas empresas produtoras do etanol de milho.
Tendo como base os preços atuais dos produtos obtidos na destilação do milho etanol e derivados, o custo do milho adquirido pelas unidades produtoras, notadamente localizadas nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, a margem econômica bruta é superior a 40% da receita operacional.
Considerando que a produção de cana de açúcar permaneça nos próximos 3 anos, no patamar estimado para a safra 2026/27 de 680 milhões de toneladas e a produção do etanol de milho aumente de acordo com os projetos em curso,teríamos o seguinte balanço entre oferta e demanda de etanol:
Balanço estimado oferta e demanda de etanol de cana e de milho.
| Discriminação | Safra 2026/27 | Safra 2027/28 | Safra 2028/29 |
| Oferta etanol cana- K m3 | 27.598 | 27.411 | 27.222 |
| Oferta etanol milho- K m3 | 13.000 | 14.950 | 17.193 |
| Oferta total de etanol- K m3 | 40.598 | 42.361 | 44.414 |
| Consumo ciclo Otto- K m3 | 62.062 | 63.924 | 65.842 |
| Consumo gasolina C- K m3 | 46.651 | 48.051 | 49.492 |
| Etanol Anidro-32% mistura- K m3 | 14.928 | 15.376 | 15.837 |
| Consumo etanol Hidratado-K m3 | 22.016 | 22.676 | 23.357 |
| Etanol mercado externo- K m3 | 500 | 505 | 510 |
| Consumo total etanol | 37.444 | 38.558 | 39.704 |
| Excedente de etanol- K m3 | 3.153 | 3.803 | 4.710 |
| Consumo de gasolina A- K m3 | 31.722 | 32.674 | 33.655 |
Obs. Taxa de crescimento do consumo ciclo Otto e do etanol hidratado, de acordo com a tendência atual calculada em 3% ao ano.
De acordo com os parâmetros registrados na tabela anterior, com o nível de mistura de 32% do etanol anidro na gasolina C, resulta em um brutal excedente de oferta de etanol de 3.153 milhões de metros cúbicos, equivalente a 7,8% da oferta total de etanol ou 11,4% da oferta de etanol de cana.
Para absorver esse excedente, seria necessário elevar a mistura do etanol anidro na gasolina C para 38%.
Essa seria a medida mais adequada no momento pois elevaria a exportação de petróleo bruto do Brasil, tendo em vista o atual preço do petróleo no mercado internacional.
O Brasil hoje ocupa posição de destaque no mercado internacional do petróleo. Já é o sétimo maior produtor de petróleo do mundo. No exercício de 2025 as exportações de petróleo e derivados do Brasil geraram receita cambial de US$ 55,1 bilhões. Foi o principal item na pauta de exportação. Por outro lado, as importações de petróleo e derivados no mesmo período atingiu a cifra de US$ 22,2 bilhões. O saldo cambial líquido na conta petróleo foi de US$ 32,9 bilhões, equivalente a 59,8% do valor das exportações.
No primeiro trimestre de 2026, de janeiro a março, as exportações de petróleo e derivados atingiu a cifra de US$ 15,5 bilhões, enquanto as importações somaram US$ 5,1 bilhões. O saldo positivo foi de 67,4% do valor das exportações.
Com o preço do petróleo operando na faixa superior a US$ 80/ barril, consiste em excelente negócio para o Brasil potencializar as exportações do óleo e apoiar o programa brasileiro de combustível renovável.
A longo prazo, ao que se apresenta no momento, o crescimento futuro da produção do etanol estará concentrada no etanol produzido a partir do milho.
Na hipótese inadequada do Governo Federal não adotar medidas não subsidiadas para apoiar o programa de produção de combustível líquido renovável, iniciado com a criação do Proálcool na segunda metade da década de 1970 ,mediante apoio a produção de etanol de cana de açúcar, potencializado agora pela iniciativa privada via produção de etanol de milho, estaremos diante de um forte desafio de como equacionar o equilíbrio e funcionamento de diversas unidades produtoras de cana de açúcar.
Maceió, abril 2026
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