Luiz Alberto Machado escreve: A Riqueza das Nações: 250 anos

Luiz Alberto Machado escreve: A Riqueza das Nações: 250 anos

- in Notícias
0
Comentários desativados em Luiz Alberto Machado escreve: A Riqueza das Nações: 250 anos

 

 

Luiz Alberto Machado[1]

 

Há 250 anos, precisamente no dia 9 de março de 1776, foi publicado um livro de um escocês nascido numa pequena cidade portuária chamada Kirckaldy, que viria a se transformar num dos mais importantes e influentes livros de todos os tempos. O escocês chamava-se Adam Smith, considerado por muitos o pai da Economia. O livro chamava-se Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, mas tornou-se mundialmente consagrado como A Riqueza das Nações.

 

A exemplo de outros livros de Economia da mesma natureza e relevância, tais como O capital, de Karl Marx, publicado em 1867, e Teoria geral do emprego do juro e da moeda, de John Maynard Keynes, publicado em 1936, ele foi provavelmente muito mais comentado do que lido, o que, de forma nenhuma, serve para desmerecê-los.

 

David Hume e Adam Smith foram os dois maiores representantes escoceses do Iluminismo, o movimento cultural que teve forte influência na Europa no início do século XVIII, cujas principais proposições eram a defesa da liberdade em todas as suas dimensões (liberalismo), o direito dos indivíduos expressarem suas ideias (individualismo) e a supremacia da razão (racionalismo).

 

Perfeccionista ao extremo, Smith teve apenas dois livros relevantes: Teoria dos Sentimentos Morais, de 1759, em que se percebe nítida influência de David Hume, e A Riqueza das Nações, de 1776.

 

Não é fácil resumir as principais ideias dos dois volumes de A Riqueza das Nações, embora seja possível indicar as que se tornaram mais divulgadas, entre as quais: as vantagens advindas da divisão do trabalho, a harmonia entre os interesses individuais e o bem-estar generalizado, o combate às práticas mercantilistas então dominantes e a defesa da propriedade privada e da concorrência.

 

Sobre a importância da divisão do trabalho, Smith recorreu ao exemplo da fábrica de alfinetes que se tornou famosa:

 

Um operário não treinado para essa atividade (que a divisão do trabalho transformou em uma indústria específica) nem familiarizado com a utilização das máquinas ali empregadas (cuja invenção provavelmente também se deveu à mesma divisão do trabalho), dificilmente poderia talvez fabricar um único alfinete em um dia, empenhando o máximo de trabalho; de qualquer forma, certamente não conseguirá fabricar vinte. Entretanto, da forma como essa atividade é hoje executada, não somente o trabalho todo constitui uma indústria específica, mas ele está dividido em uma série de setores, dos quais, por sua vez, a maior parte também constitui provavelmente um ofício especial. Um operário desenrola o arame, um outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação da cabeça do alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-se 3 ou 4 operações diferentes; montar a cabeça já é uma atividade diferente, e alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes também constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fabricar um alfinete está dividida em aproximadamente 18 operações distintas, as quais, em algumas manufaturas são executadas por pessoas diferentes, ao passo que, em outras, o mesmo operário às vezes executa 2 ou 3 delas. Vi uma pequena manufatura desse tipo, com apenas 10 empregados, e na qual alguns desses executavam 2 ou 3 operações diferentes. Mas, embora não fossem muito hábeis, e portanto não estivessem particularmente treinados para o uso das máquinas, conseguiam, quando se esforçavam, fabricar em torno de 12 libras de alfinetes por dia. Ora, 1 libra contém mais do que 4 mil alfinetes de tamanho médio. Por conseguinte, essas 10 pessoas conseguiam produzir entre elas mais do que 48 mil alfinetes por dia. Assim, já que cada pessoa conseguia fazer 1/10 de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que cada uma produzia 4.800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado independentemente um do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para esse ramo de atividade, certamente cada um deles não teria conseguido fabricar 20 alfinetes por dia, e talvez nem mesmo 1, ou seja: com certeza não conseguiria produzir a 240ª parte, e talvez nem mesmo a 4.800ª parte daquilo que hoje são capazes de produzir, em virtude de uma adequada divisão do trabalho e combinação de suas diferentes operações.

 

Um dos trechos mais reproduzidos de A Riqueza das Nações versa sobre a convergência entre os interesses individuais e o bem-estar generalizado:

 

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles.

 

Com tantas matérias publicadas por ocasião do aniversário da publicação de A Riqueza das Nações, creio ser interessante divulgar uma curiosidade conhecida por pouca gente, que me foi relatada por Alex Catharino. A primeira resenha de A Riqueza das Nações foi escrita pelo conservador Edmund Burke e publicada, em 1776, no The Annual Register, do qual era editor. O filósofo e estadista irlandês era amigo do filósofo e economista escocês Adam Smith há quase duas décadas, tendo publicado, em 1759, a primeira resenha da Teoria dos Sentimentos Morais no mesmo anuário, sendo que ambos eram membros do “The Club”, uma sociedade de debates fundada em 1764, formada por importantes figuras da época, que se reuniam toda segunda-feira para jantar, beber cerveja ou vinho, e debater com os amigos seus escritos antes de publicá-los.

 

Se essa prática fosse mantida até os dias de hoje, possivelmente haveria uma redução considerável das informações e notícias destituídas de qualquer sentido que nos chegam diariamente pelos mais diferentes meios de comunicação, em especial pelas redes sociais.

 

 

[1] Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM – Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e consultor da Fundação Espaço Democrático. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.

About the author

You may also like

Guia gratuito