Inflação na veia do Fed: Tensão no Oriente Médio pode enterrar cortes de juros?

Inflação na veia do Fed: Tensão no Oriente Médio pode enterrar cortes de juros?

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Juliana CaveiroPor

Juliana Caveiro
04 mar 2026, cpi eua inflação
(Imagem: sasirin pamai’s Images)A escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu um velho mecanismo da macroeconomia: petróleo mais caro, inflação mais resistente. E, para o mercado, isso pode reduzir ainda mais as já adiadas chances de corte de juros pelo Federal Reserve.

“O petróleo é um componente crucial para diversos componentes do CPI e do PCE [dados de inflação dos EUA]. Basicamente, é inflação na veia”, afirma Cauê Valim, analista de alocação e inteligência da Avenue.

A avaliação é compartilhada por Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. Segundo ele, o mercado ainda trata o conflito como um choque de volatilidade, mas o cenário pode rapidamente migrar para algo mais estrutural.

“A grande questão é se esse choque de volatilidade vai se transformar em um choque macroeconômico. Aí sim a gente tem efeitos mais amplos sobre variáveis macroeconômicas, principalmente a inflação”, diz. “Num cenário mais extremo, você pode ter inflação mais alta e atividade mais fraca, o que os economistas chamam de estagflação”, completa.

Estreito de Ormuz é parte importante do jogo

No centro da preocupação está o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

Estimativas do Goldman Sachs indicam que um fechamento total da via por um mês poderia elevar o preço do petróleo entre US$ 10 e US$ 15 por barril, a depender do grau de compensação via rotas alternativas e uso de reservas estratégicas. Em um quadro de interrupção parcial de 50%, o efeito estimado ficaria entre US$ 4 e US$ 7. Já um bloqueio de 25% teria impacto mais contido, entre US$ 1 e US$ 4.

“Estamos falando de um choque adverso de energia que tem repercussão direta na inflação”, aponta Shahini.

O desafio é que a inflação americana ainda não convergiu de forma consistente para a meta de 2%. Nesse ambiente, qualquer novo choque de oferta dificulta a flexibilização monetária.

“Se você tinha argumentos fracos para corte de juros antes, com um choque de oferta e preços pressionados eles ficam muito mais fracos”, diz Shahini.

Além da inflação corrente, há outro ponto central no debate que é se os Estados Unidos já estariam operando próximos do chamado juro neutro, nível que não estimula nem freia a economia.

“Existe um debate relevante se os Estados Unidos já atingiram o juro neutro ou estão muito próximos dele”, afirma Shahini. Para parte do mercado e de membros mais conservadores do banco central, a taxa atual, na faixa de 3,5% a 3,75%, já estaria próxima desse patamar.

Nesta quarta-feira (4), o diretor do Federal Reserve Stephen Miran afirmou que os riscos inflacionários decorrentes do conflito entre Estados Unidos e Irã não alteram, em sua visão, a necessidade de cortes contínuos nos juros ao longo deste ano.

Miran defende que o Fed realize quatro cortes de 0,25 ponto percentual este ano, movimento que levaria a taxa para um nível considerado aproximadamente neutro. Parte de seus pares, porém, avalia que esse patamar já pode ter sido alcançado.

Mercado já reduz apostas em cortes

Os números do CME FedWatch mostram que o mercado já trabalha com um ciclo de cortes mais lento e concentrado apenas a partir do segundo semestre de 2026.

Para março, a probabilidade majoritária (97,3%) ainda está na manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75%. As apostas começam a se distribuir mais claramente para níveis abaixo de 3,50% apenas a partir de setembro.

Em dezembro, as maiores probabilidades já se concentram entre 3% a 3,25% (33,4% das apostas) e 3,25% a 3,50% (30,5%), indicando cortes graduais, mas longe de um movimento agressivo.

“O mercado já precifica o primeiro corte apenas para setembro. Tem casas que já projetam somente um corte, e outras que não projetam nenhum corte para 2026”, afirma Valim. “Aumento no preço do petróleo pode corroborar com uma diminuição no pace de queda de juros por lá.”

Se o barril ganhar tração com um bloqueio prolongado em Ormuz, a precificação pode ser novamente ajustada, empurrando cortes ainda mais para frente.

Novo comando no Fed e expectativa de perfil técnico

Além do cenário inflacionário, investidores acompanham a mudança na liderança do banco central, que ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (4).

O presidente Donald Trump enviou ao Senado dos Estados Unidos a indicação do ex-governador do Federal Reserve Kevin Warsh para assumir a presidência da instituição.

Warsh substituiria Jerome Powell após o término de seu mandato, em 15 de maio, e cumpriria um mandato de quatro anos.

A indicação marca o primeiro passo de um processo que promete ser polêmico, diante do histórico de críticas do presidente americano ao nível atual das taxas e de seu objetivo declarado de nomear um chefe do Fed favorável à redução dos juros.

Inicialmente, parte do mercado interpretou a escolha como um movimento potencialmente menos conturbado do que outras opções levantadas por Trump. Segundo Valim a leitura acabou sendo mais técnica do que política.

“A nomeação foi vista como muito positiva pelo mercado”, afirma. “O mercado vê como um nome técnico e positivo para a continuidade da independência do Fed.”

Valim destaca que, apesar de já ter se mostrado aberto ao debate sobre flexibilização monetária, Warsh tem histórico de cautela e aderência ao arcabouço tradicional da política monetária.

“Apesar de ter se alinhado ao discurso de queda de juros, historicamente ele é uma pessoa bem pautada na teoria e bem cautelosa”, diz. “Ele vai olhar para os dois principais pilares, emprego e inflação, para cortar juros.”

A sabatina no Senado será um passo decisivo para consolidar a percepção de independência institucional e rigor técnico na condução da política monetária.

 

Juliana Caveiro
Por Juliana Caveiro
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.

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