Pedro Jobim, economista-chefe e sócio-fundador da Legacy Capital é o convidado desta semana no podcast Touros e Ursos

Monique Lima
26 de fevereiro de 2026
O mercado brasileiro deu boas-vindas a 2026 em ritmo de festa: o Ibovespa está na máxima histórica e o dólar na mínima de dois anos. E, embora o Carnaval tenha passado, a folia dos ativos deve se prolongar.
Pedro Jobim, economista-chefe e sócio-fundador da Legacy Capital, afirma que o otimismo com a moeda brasileira é o ponto central da tese da gestora este ano. Com o dólar historicamente caro em uma janela de 50 anos, o real surge como um destino natural para o fluxo de capital estrangeiro.
“A gente acredita que o câmbio talvez seja um dos melhores ativos para continuar surfando esse momento do mercado. A taxa pode chegar a R$ 5 e até romper esse patamar num horizonte relativamente curto”, afirmou Jobim em entrevista ao podcast Touros e Ursos desta semana.
A economia brasileira vs. as eleições
Após uma sequência de crescimento surpreendente que levou o desemprego para a mínima histórica de 6%, o Brasil deve enfrentar uma “ressaca” cíclica em 2026, segundo Jobim. A Legacy projeta que a economia sentirá o peso dos juros altos dos últimos meses, resultando em um Produto Interno Bruto (PIB) mais modesto neste ano, em torno de 1,5%.
Essa desaceleração, no entanto, não deve afetar o cenário para os ativos financeiros, que permanece positivo no curto prazo, especialmente com o arrefecimento da inflação.
O risco fiscal continua sendo o “elefante na sala”, que pode interromper o ciclo de bonança da bolsa. Jobim classifica a atual política fiscal como “totalmente insustentável”, com a dívida pública crescendo cerca de seis pontos acima do PIB ao ano.
Para o economista, o país precisará de algum tipo de teto de gastos ou ajuste profundo em 2027 para evitar uma desorganização das expectativas de inflação e do câmbio no longo prazo.
No campo político, a Legacy observa uma fadiga na popularidade do governo Lula, apesar dos bons números econômicos recentes. A preocupação da população com segurança pública e corrupção, somada ao surgimento de novos fatos políticos, como as investigações envolvendo o Banco Master, retira o favoritismo claro do atual presidente para a reeleição.
Esse ambiente deve gerar volatilidade adicional nas negociações em bolsa conforme o pleito de 2026 se aproxima.
Estratégia da Legacy
A Legacy mantém uma postura seletiva e focada em tendências macroeconômicas globais, dividindo sua atuação em três grandes blocos.
O primeiro deles foca na tecnologia nos Estados Unidos, onde a gestora migrou da escolha de ações individuais para índices gerais. Jobim explica que a rápida evolução da inteligência artificial tornou difícil prever quem serão os vencedores finais, embora os nomes fundamentais da cadeia prevaleçam, como a fabricante de chips TSMC.
O segundo pilar da estratégia é o mercado de moedas, onde a gestora aposta na depreciação do dólar e do euro contra moedas emergentes de alto rendimento. O real e o peso mexicano são os destaques dessa carteira, aproveitando o diferencial de juros favorável e a propensão ao risco global.
No Brasil, o terceiro pilar, a Legacy está posicionada para lucrar com a queda dos juros, tanto nominais (taxa Selic) quanto reais (descontando a inflação), acreditando que a desaceleração econômica forçará o Banco Central a ser mais agressivo nos cortes.
No entanto, a gestora mantém uma posição neutra em relação à bolsa brasileira, mesmo com o Ibovespa rompendo os 190 mil pontos.
Para os analistas da Legacy, as principais empresas do índice já estão com preços elevados depois do rali de janeiro e oferecem taxas de retorno que não são interessantes sob as premissas atuais. Jobim considera que o mercado acionário local ficou “raso” e o efeito do fluxo estrangeiro inflou os preços além dos fundamentos, tornando os ativos caros.
Touros e Ursos da Semana
No bloco final do programa, os convidados elegem os touros e ursos da semana, expressão que dá nome ao podcast. Nesta semana, o Banco Pleno foi um dos ursos (destaque negativo) após ter sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central devido à deterioração de sua situação financeira. A instituição, que já fez parte do conglomerado do Banco Master, mantinha a mesma estratégia de captar recursos via CDBs com taxas muito acima do mercado.
Outro urso mencionado foi a prática de stock picking (seleção pontual de ações) em empresas de tecnologia dos Estados Unidos, dada a incerteza de quais nomes sobreviverão à revolução da inteligência artificial.
Em contrapartida, os touros (destaques positivos) refletiram o otimismo com a moeda nacional. O par dólar/real foi destacado como um dos grandes vencedores, com Jobim reforçando que a moeda norte-americana deve buscar níveis abaixo de R$ 5 em um horizonte curto.
A tendência de desvalorização do dólar frente ao real é vista como consistente, desde que não ocorram choques geopolíticos graves, como um agravamento das tensões no Irã.
monique.lima@seudinheiro.comMonique Lima é jornalista com atuação em renda fixa, finanças pessoais, investimentos e economia, com passagem por veículos como VOCÊ S/A, Forbes, InfoMoney e Suno Notícias. Formada em Jornalismo em 2020, atualmente, integra a equipe do Seu Dinheiro como repórter, produzindo conteúdos sobre renda fixa, crédito privado, Tesouro Direto, previdência privada e movimentos relevantes do mercado de capitais.



