OPINIÃO. Caso Fictor revela como o investidor brinca de cassino

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Episódio expõe a ilusão do retorno fácil e como a falta de diligência transforma investimento em aposta

Por Fabrizio Gueratto

Investir exige responsabilidade, caso contrário pode se tornar prejuízo (Foto: Adobe Stock)
Investir exige responsabilidade, caso contrário pode se tornar prejuízo (Foto: Adobe Stock)

O caso Fictor incomoda porque desmonta uma fantasia que o investidor brasileiro insiste em alimentar: a de que dá para ganhar acima da média sem fazer o básico. Não é um episódio isolado, é um retrato fiel de como muita gente se comporta quando enxerga retorno alto, fecha os olhos para a estrutura e chama isso de coragem.

 

A dívida declarada gira em torno de R$ 4,3 bilhões. Antes mesmo de qualquer decisão judicial, cerca de 70% dos recursos, algo próximo de R$ 2 bilhões, tentou sair ao mesmo tempo. Quando todo mundo corre junto, não é azar. É uma descoberta tardia. É o momento em que o investidor percebe que talvez nunca tenha entendido o jogo em que entrou.

Há um detalhe que ajuda a entender por que essa engrenagem era tão sensível. A Fictor oferecia retornos de 2% a 3% ao mês, chegando a algo próximo de mais de 20% ao ano. Quando uma empresa capta dinheiro pagando esse nível de retorno, ela precisa, necessariamente, rentabilizar esse capital acima disso para manter um spread (diferença entre o preço de compra e o preço de venda) que cubra custos, risco e ainda gere lucro.

Não basta devolver o dinheiro com juros. É preciso ganhar mais do que o prometido. Na prática, isso significa fazer aquele dinheiro render algo próximo de 25% a 30% ao ano de forma recorrente.

Garantir esse nível de retorno, todos os anos, com risco controlado, não é simples, nem trivial, nem comum. É uma operação complexa, que exige estrutura, governança e execução impecáveis. Quanto maior a promessa, menor a margem de erro.

 

E aqui está o ponto mais incômodo. Muita gente colocou dinheiro sem saber se havia registro, sem entender o modelo, sem verificar quem fiscalizava, sem checar se existia qualquer validação externa relevante. Não havia outros investidores institucionais conhecidos. Não havia diligência pública robusta. Não havia o desconforto mínimo que acompanha decisões sérias. Ainda assim, houve adesão. Não por ignorância, mas por conveniência.

Risco pressupõe escolha consciente

O investidor gosta de dizer que assume risco. Mas risco pressupõe escolha consciente. O que aconteceu foi outra coisa. Foi preguiça travestida de ousadia. Foi a terceirização de responsabilidade. Foi a decisão de acreditar porque perguntar dá trabalho, e porque a promessa parecia boa demais para ser interrompida por detalhes chatos como governança, regulação ou estrutura jurídica.

No cassino, isso faz sentido. Ninguém pergunta quem regula a roleta. A pessoa só quer saber se a ficha dobra. O problema é que o investidor brasileiro vem importando essa lógica para o mercado financeiro. Ele não investe, ele aposta. Só muda o cenário, troca a roleta por um PDF bem diagramado e chama isso de oportunidade exclusiva.

Existe uma linha clara entre risco e irresponsabilidade, e ela foi cruzada com naturalidade. Risco é investir sabendo onde está pisando. Irresponsabilidade é entrar sem saber se o chão existe. Nenhum retorno alto justifica operar no escuro, mas o investidor insiste em tratar a verificação como frescura e retorno como direito adquirido.

 

O caso Fictor também escancara uma vaidade perigosa. A ilusão de estar “dentro” de algo que poucos conhecem. O investidor confunde solidão com exclusividade. Acha que entrou antes dos grandes, quando, na verdade, entrou sem eles. E quando não há ninguém grande para dividir o risco, o pequeno descobre tarde demais por que os grandes não estavam lá.

A crise não cria o problema. Ela só expõe o que sempre esteve ali. Estruturas frágeis funcionam enquanto o dinheiro entra. Quando a liquidez seca, a fantasia acaba. O mercado não pune a ingenuidade, ele cobra negligência.

O desconforto real desse episódio não é o prejuízo. É perceber o quanto isso é repetido. Promessa alta, checagem mínima, adesão rápida e surpresa coletiva. Enquanto o investidor continuar tratando o básico como opcional, novos casos vão surgir com nomes diferentes e o mesmo roteiro.

 

Cassino não é perder dinheiro. Cassino é decidir não olhar as regras e ainda se surpreender quando a casa vence.

Fonte : Estadão

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