Entenda a polêmica por trás da fusão entre Warner e Netflix

Entenda a polêmica por trás da fusão entre Warner e Netflix

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Avaliada em US$ 82,7 bilhões, a operação pode redesenhar o mercado de streaming e desafiar reguladores no mundo todo

Kauê Medeiros
21 de Janeiro 18h17

(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)
Imagine sentar-se no sofá para assistir à nova série de “Harry Potter”, produzida pela HBO, e, antes do logotipo da Warner Bros., ser surpreendido pelo icônico “Tudum!” da Netflix. Esse cenário tornou-se uma possibilidade real diante da esperada fusão entre a Warner Bros. Discovery (WBD) e a gigante do streaming.

O caminho até a venda

Nos últimos anos, a Warner Bros. Discovery vinha enfrentando uma situação financeira delicada. Em 2022, momento em que a WarnerMedia, que até então pertencia à AT&T, fundiu-se com a Discovery, Inc. para formar a Warner Bros. Discovery, a companhia já apresentava uma dívida acumulada superior a US$ 40 bilhões.

Sob a nova gestão, foram implementados cortes agressivos de custos. Entre eles, o cancelamento de projetos e demissões em massa, mas tais medidas não foram suficientes para estabilizar o caixa. No segundo semestre de 2024, foi relatado um prejuízo de US$ 9,9 bilhões, valor impulsionado principalmente pela acentuada desvalorização dos canais de TV a cabo e pelo fraco desempenho das ações do estúdio no mercado mundial de mídia.

Foi então que, em 21 de outubro de 2025, a WBD anunciou que estava aberta a propostas de aquisição por meio de um leilão. Na ocasião, a Paramount apresentou uma oferta pela totalidade da empresa, incluindo os canais de televisão, enquanto a Comcast e a Netflix demonstraram interesse específico na valiosa biblioteca de filmes e séries.

Em janeiro de 2026, a WBD confirmou que a Netflix apresentou as melhores condições para o negócio. A operação avaliou a Warner Bros. Discovery em US$ 27,75 (R$ 149,71) por ação, totalizando US$ 82,7 bilhões (R$ 445,7 bilhões) em valor empresarial, com US$ 72 bilhões em valor de mercado para os acionistas da companhia. O pagamento será realizado integralmente em dinheiro, uma estratégia financeira para dificultar a entrada de concorrentes no processo de fusão.

Além do valor multibilionário, o contrato estabelece que, caso a fusão não seja aprovada pelos órgãos reguladores, a plataforma de streaming pagará uma multa de US$ 5 bilhões à WBD. A união, embora legal e recorrente na indústria, repercutiu intensamente no mercado.

Os desafios regulatórios

Um dos principais pontos de atenção levantados tanto por cineastas quanto por políticos norte-americanos é o risco de que essa fusão represente a formação de um monopólio no setor de streaming. Na rede social X, o senador norte-americano Mike Lee, republicano de Utah e presidente do comitê antitruste do Senado, manifestou sua preocupação ao afirmar que, embora a Netflix tenha criado um serviço de excelência, o aumento desmedido de seu domínio poderia significar o fim da “Era de Ouro” do streaming para criadores de conteúdo e consumidores.

Contudo, José Ricardo Martins, sócio da área de M&A do Martins Villac Advogados, eleito Mais Admirado no setor de comunicação e entretenimento pelo ANÁLISE ADVOCACIA 2026, apresenta uma perspectiva distinta. O advogado pondera que a existência atual de diversos canais de streaming e múltiplos produtores de conteúdo torna difícil a caracterização imediata de uma concentração econômica prejudicial. Para ele, a decisão final dependerá de como os órgãos reguladores interpretarão o impacto da transação: se ela poderá reduzir a oferta de produtos e serviços, ou se conferirá à nova gigante o poder de arbitrar preços de maneira não competitiva.

“O órgão regulador antitruste tem como foco garantir a oferta, livre concorrência e o melhor mix de oferta de produtos e serviços para o consumidor, sempre com o máximo de autonomia e liberdade. Então, todos esses processos de concentração econômica acabam de alguma maneira alertando o regulador para esse risco”, complementa o advogado.

Mesmo com as polêmicas, o sócio do Martins Villac Advogados, entende que o órgão poderá encarar todo o processo de fusão como algo positivo, contanto que ele apresente vantagens aos consumidores, e não prejuízos.

Tanto a Warner Bros. Discovery quanto a Netflix foram procuradas para se manifestar a respeito das acusações de monopólio, mas, até o fechamento desta matéria, não houve retorno de nenhuma das duas empresas.

Netflix vs redes sociais

Um dos contra-argumentos centrais utilizados pela Netflix para rebater a tese de monopólio reside na mudança nos hábitos de consumo de mídia pelo público. A defesa sustenta que o YouTube já supera a plataforma de streaming em alcance, consolidando-se como seu principal concorrente na disputa direta pela atenção dos usuários.

Para Paula Menezes, membro da Comissão de Mídia, Entretenimento e Cultura da OAB SP, o órgão antitruste norte-americano deverá avaliar criteriosamente se a Netflix e as redes sociais integram, de fato, o mesmo “mercado relevante”. Na visão da especialista, há grandes chances de a plataforma de streaming se posicionar como uma empresa de tecnologia que faz frente a outras companhias do setor que operam com conteúdos gerados por usuários, em vez de se limitar à classificação de empresa multimídia tradicional. Sob essa lógica, a Paramount e outros serviços de streaming deixariam de ser seus concorrentes diretos, deslocando a competitividade para plataformas de outra natureza.

Entretanto, Paula levanta uma questão sobre a viabilidade de uma plataforma como a Netflix se colocar no mesmo patamar dos usuários de redes sociais, questionando o limite entre o entretenimento profissional e o amador. “O quanto um produto criado por produtores audiovisuais se diferencia inegavelmente do conteúdo criado por influencers? Sabemos que hoje em dia existem criadores de conteúdo que fazem ótimos materiais, mas não estão caracterizados como produtores audiovisuais. Essa é a grande discussão que pode ser gerada dentro dos órgãos antitruste”, ressalta a advogada.

A geopolítica do entretenimento

Mesmo que os órgãos reguladores norte-americanos concedam o aval à fusão, a legislação concorrencial de diversos outros países ainda precisará analisar a operação. Vicente Bagnoli, sócio-fundador e administrador do Vicente Bagnoli Advogados, eleito Mais Admirado na especialidade concorrencial pelo setor de comunicação e entretenimento no ANÁLISE ADVOCACIA 2026, aponta que existe a possibilidade de contestações internacionais, embora considere essa hipótese remota em termos de bloqueio total.

Bagnoli diz que pode haver uma decisão mais restritiva por parte do CADE no Brasil, cujo impacto no contexto operacional global poderia ser pequeno. Entretanto, em outros cenários e mercados de grande porte, as dificuldades podem aumentar proporcionalmente à relevância do território.

“Agora, por exemplo, se é uma decisão contrária à fusão nos Estados Unidos ou na União Europeia, aí já muda o peso. Dependendo da tensão na União Europeia ou nos EUA, as partes podem desistir da operação, pois estamos falando de grandes mercados, com enorme impacto operacional”, complementa o sócio.

Apesar dos argumentos sobre o risco de monopólio e das barreiras em mercados internacionais, o especialista enxerga um desfecho regulatório positivo para a fusão. Ele fundamenta sua visão no histórico de movimentos semelhantes ocorridos recentemente na indústria.

“Considerando operações anteriores nesse setor, os órgãos reguladores podem, sim, aprová-la. Agora, se vai ser colocado remédio antitruste ou não, vai depender do que as autoridades de cada país analisar”, aponta Vicente.

O choro dos perdedores

Após ter diversas propostas de compra recusadas, incluindo uma “oferta hostil”, a Paramount decidiu recorrer à Justiça. A empresa protocolou uma ação no tribunal do estado de Delaware, nos EUA, exigindo os detalhes do acordo firmado entre a Warner e a Netflix.

Entretanto, Vicente Bagnoli afirma que essa investida jurídica da Paramount terá efeitos mínimos sobre a negociação entre a Netflix e a WBD. Para o especialista, a companhia decide estrategicamente não se deixar adquirir por determinado grupo. Esse processo envolve múltiplas análises, avaliações de mercado e identificação de riscos para determinar qual caminho é o mais interessante para os objetivos da empresa.

E o futuro?

A fusão da Warner Bros. Discovery com a Netflix pode representar uma nova etapa do mercado multimídia mundial; pelo menos é o que aponta Vicente Bagnoli. “Talvez estejamos seguindo para um modelo com menos opções de streaming e maior concentração de conteúdo. Essa pode ser a nova realidade do setor”, afirma.

Algumas plataformas, como o Prime Video, já apresentam esse fenômeno. Em 2022, o serviço passou a transmitir os jogos da Copa do Brasil através de um sublicenciamento com a Globo. A plataforma também adquiriu os direitos exclusivos do Brasileirão junto à Liga Forte União (LFU) para as temporadas de 2025 a 2029. Bagnoli afirma que esse novo paradigma irá afetar severamente um setor em específico: a TV por assinatura.

“Se os canais de TV por assinatura não tiverem conteúdo, como fica a situação? Eles vão oferecer o quê para os seus assinantes? Caso as plataformas de streaming concentrem conteúdo, será que as emissoras de canal aberto terão força para gerar produtos e disputar com o streaming? Então, este é um novo momento que a televisão, tanto a por assinatura quanto a aberta, está vivendo”, alerta Bagnoli.

José Martins enxerga essa movimentação com otimismo. Para ele, essa é mais uma onda tecnológica que impulsiona novas abordagens no mercado do entretenimento. Dessa forma, novos players, cuja existência ninguém imaginaria há anos atrás, ganham força e espaço. E ele afirma que esse é apenas o começo.

“Estamos vivendo, mais uma vez, um processo no qual novas tecnologias certamente vão reconfigurar o mercado do entretenimento. Acredito que continuaremos vivenciando situações parecidas com estas nos próximos anos, impulsionadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias e abordagens de mercado”, finaliza José Martins.

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