Acordo de livre comércio entre o Mercosul e União Europeia vai zerar alíquotas de importação de vinhos, queijos, azeites, chocolates e automóveis; veja o que muda daqui para frente

Letícia Flávia Pinheiro
21 de janeiro de 2026

União Europeia e Mercosul – Imagem: Shutterstock
Depois de 25 anos de negociação, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) foi assinado neste sábado (17). Com isso, se cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, envolvendo mais de 700 milhões de consumidores.
O objetivo do tratado é oferecer uma relação ganha-ganha com a redução de tarifas comerciais entre os dois blocos. Para os brasileiros, isso significa que 91% dos produtos europeus ficarão mais acessíveis no mercado ou, até mesmo, mais baratos.
Com isso, resta uma pergunta ao consumidor brasileiro: na prática, o que fica mais barato com a assinatura do acordo?
Vantagem na taça
O vinho é um dos principais beneficiados. Hoje taxado em 27%, o acordo prevê a adoção da tarifa zero entre oito e 12 anos, a depender do produto. Como consequência, a medida pode diminuir o preço da bebida à longo prazo e aumentar a diversidade de rótulos disponíveis no Brasil, conforme explicou Roberto Kanter, professor de Marketing da FGV, ao G1.

Afinal, é na Europa onde estão os maiores produtores de vinho do mundo, como Itália, França e Espanha, respectivamente, de acordo com a International Organisation of Vine and Wine (OIV).
Segundo Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, o acordo comercial beneficia em primeiro lugar o consumidor, seja ele da América do Sul ou da Europa. É válido lembrar, porém, que as mudanças não serão imediatas. O acordo ainda depende de aprovação formal pelos congressos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, processo que pode se estender por meses.
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No caso de queijos e laticínios, produtos como parmesão, brie e camembert hoje enfrentam tarifas que variam entre 16% e 28%. Pelo acordo, essas alíquotas acabarão ao longo de até 10 anos, dentro de uma cota anual de 30 mil toneladas. Outros itens do segmento, como muçarela, creme de leite e leite condensado, ficaram fora da negociação e continuarão sujeitos às tarifas atuais.
Já a taxa de importação dos azeites, atualmente em 10%, também será eliminada de forma gradual ao longo de até 15 anos. Com exceção do azeite de bagaço de oliva, que terá o imposto zerado em um prazo mais curto, de até quatro anos.
Para as massas, a maior parte dos produtos deverá alcançar tarifa zero em até dez anos. Atualmente, esses itens pagam impostos que podem chegar a 16%, a depender do grau de processamento.
Os chocolates aderem à tarifa zero

Os célebres chocolates europeus, hoje taxados em 20%, surfarão a tarifa zero no futuro — parte dos produtos em até dez anos, enquanto o restante em até 15 anos.
No entanto, isso não quer dizer que os preços ficarão mais baratos. Isso porque o Brasil dispõe de uma produção diversificada de chocolate, tanto de empresas nacionais quanto internacionais, capazes de atender o consumidor em diferentes faixas de preço.
Na visão do professor Roberto Kanter, a grande diferença é o maior acesso a marcas premium, que podem se tornar mais presentes no mercado brasileiro.
Carros importados

No setor automotivo, a tarifa de importação, hoje em 35%, será reduzida progressivamente até chegar a zero em até 15 anos. Como consequência, carros produzidos na Europa podem chegar no Brasil a preços menores. Nesse caso, não só os automóveis de marcas de luxo devem ser beneficiados, como também carros de marcas populares fabricados no continente europeu, como Volkswagen, Fiat e Renaul
O setor, porém, é sensível no Brasil, já que compete com modelos fabricados no país e concessionárias locais.
“Vai ser muito fácil importar carros europeus para o consumidor brasileiro. Já para quem produz no Brasil, vai ficar mais difícil competir”, explica o professor Paulo Feldmann.
Por esse motivo, as alíquotas serão reduzidas de forma gradual, para que a indústria brasileira possa se planejar para essa nova realidade.
A tarifa zero também valerá para peças automotivas entre sete e dez anos. Atualmente, o imposto varia entre 14% e 18% sobre a importação.
Joias, relógios, roupas: acordo abre oportunidades para o mercado de luxo europeu

Com nomes como LVMH, Kering, Hermès e Ri
Isso pode gerar uma economia anual de até 4 bilhões de euros para os exportadores europeus, o que representa uma vantagem expressiva para bens de luxo, que são altamente sensíveis a variações tarifárias.
Ainda que o consumo de produtos de luxo nos países do Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, seja menor do que nos Estados Unidos ou na Ásia, a Europa enxerga potencial para crescimento, ainda mais com a expansão da classe média alta na região.
Letícia Flávia Pinheiro
Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), apaixonada por arte, cultura e tendências.



