Luiz Alberto Machado[2]
1. Considerações iniciais
Há algumas décadas o bom desempenho econômico da Ásia tem chamado a atenção do mundo, sobretudo dos economistas. Primeiro foi o Japão, que conseguiu, com incrível rapidez, superar as enormes dificuldades ocasionadas pela derrota na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se transformar numa das maiores potências econômicas do planeta. O Japão se tornou a segunda maior economia do mundo em 1968, ultrapassando a então Alemanha Ocidental.
Em segundo destaca-se o grupo dos chamados Tigres Asiáticos, composto por Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan, que protagonizou um dos processos de industrialização e modernização econômica mais bem-sucedidos do pós-Segunda Guerra Mundial. Entre eles, merece especial destaque a Coreia do Sul, que, após a Guerra da Coreia (1950-1953), transformou-se rapidamente de uma economia predominantemente rural e de baixa renda em uma economia urbana, industrializada e de elevado padrão de renda.
A China foi a terceira economia asiática a alcançar essa posição após a abertura gradual de sua economia e o excepcional crescimento econômico observado nas décadas subsequentes às reformas estruturais introduzidas por Deng Xiaoping a partir de dezembro de 1978. Esse processo foi suficiente para transformar o país na segunda maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal e na maior economia global quando mensurada pelo critério do PIB por Paridade de Poder de Compra (PPC).
Agora é a vez da Índia, que vem atravessando uma fase de crescimento econômico fenomenal, saindo da décima posição em 2014 para a quarta posição de maior economia do mundo. No terceiro trimestre de 2025, a Índia registrou a impressionante taxa de crescimento do PIB de 8,2%. Apesar deste avanço econômico, a pobreza ainda não foi reduzida, pois cerca de 780 milhões de pessoas (60% de sua gigantesca população) ainda vive com menos de US$ 3,00 por dia.
Em 2025, o PIB nominal da Índia superou o do Japão, consolidando o país do Sul da Ásia como a quarta maior economia do mundo. De acordo com estimativas recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB indiano alcançou US$ 4,187 trilhões, enquanto o PIB japonês atingiu US$ 4,186 trilhões.
Esse avanço econômico representa um marco histórico, pois ao longo da última década, a Índia ultrapassou o Japão em termos de PIB nominal, posicionando-se atrás dos Estados Unidos da América (EUA), China e Alemanha, com PIB total de US$ 30,5 trilhões, US$ 19,2 trilhões e US$ 4,74 trilhões, respectivamente. Tal desempenho econômico ocorre em um contexto de forte crescimento demográfico.
A Índia tornou-se o país mais populoso do planeta, com 1,45 bilhão de habitantes, o que amplia seu mercado interno e potencial produtivo, mas também impõe desafios estruturais relevantes, sobretudo nas áreas de educação, saúde e saneamento básico.
Em contraste, o Japão possui uma população significativamente menor, cerca de 125 milhões de habitantes, e enfrenta um acelerado processo de envelhecimento demográfico. Ainda assim, o Japão mantém uma economia desenvolvida, com indicadores sociais robustos, como elevada expectativa de vida ao nascer, erradicação do analfabetismo e elevados padrões de bem-estar social.
Dessa forma, a análise comparativa entre Índia e Japão não deve se restringir ao tamanho absoluto do PIB, mas considerar de maneira integrada os indicadores sociais, demográficos, econômicos e de desenvolvimento humano, que influenciam diretamente a qualidade de vida da população, a produtividade do trabalho e as oportunidades de inovação e cooperação econômica internacional.
2. Principais indicadores econômicos e sociais da Índia e do Japão na atualidade
A Índia é um país emergente e integrante do BRICS e do Grupo dos Vinte (G20). No ranking global do PIB nominal, a Índia é a 4ª maior economia mundial. Já o Japão é um país desenvolvido e membro do Grupo dos Sete (G7) e do G20. No ranking mundial do PIB nominal, o Japão é a 5ª maior economia do planeta.
O Quadro 1 apresenta os principais indicadores econômicos e sociais da Índia e do Japão na atualidade:
Quadro 1. Indicadores econômicos e sociais da Índia e do Japão na atualidade |
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| Indicador | Índia | Japão |
| PIB Nominal | US$ 4,187 trilhões | US$ 4,186 trilhões |
| Taxa de Crescimento do PIB | 8,2% ao ano | 0,6% ao ano |
| PIB per capita | US$ 2.694 | US$ 32.487 |
| População Total | 1,45 bilhão de hab. | 125 milhões de hab. |
| Número de Analfabetos | 250 milhões de pessoas | Praticamente zero |
| Número de Pobres | 780 milhões de pessoas | Praticamente zero |
| Expectativa de Vida ao Nascer | 72,1 anos | 84,7 anos |
| Taxa de Desemprego | 5,0% | 2,3% |
| Média de Anos de Escolaridade | 6,9 anos | 12,7 anos |
| IDH | 0,685 | 0,925 |
| Fontes: FMI, Banco Mundial, PNUD, UNESCO. | ||
3. Principais interpretações dos indicadores da Índia e do Japão
3.1 Crescimento econômico
A Índia é uma economia emergente, com forte setor de serviços e tecnologia da informação (TI), industrialização em expansão. Já o Japão é uma economia desenvolvida, com alta tecnologia, indústria avançada e considerável inovação tecnológica.
A milenar Índia apresenta taxas de crescimento econômico significativamente superiores à média global, impulsionadas pelo consumo interno, expansão do setor de serviços, avanço da indústria, reformas estruturais e crescente integração às cadeias globais de valor agregado.
Já o milenar Japão, por sua vez, enfrenta há décadas um cenário de baixo crescimento econômico, pressionado pelo envelhecimento populacional e pela estagnação da demanda interna, embora preserve uma sólida base industrial, tecnológica e exportadora.
3.2 Educação e capital humano
Um dado particularmente revelador é que o PIB da Índia, mesmo com milhões de analfabetos, supera o PIB do Japão, país que praticamente erradicou o analfabetismo. A baixa escolaridade de parte significativa da população indiana constitui um obstáculo relevante ao aumento da produtividade e à redução das desigualdades socioeconômicas.
Em contraste, o Japão se beneficia de elevados níveis educacionais, que sustentam sua capacidade de inovação e competitividade global. É importante ressaltar que na Índia, em relação à estrutura etária, mais de 50% dos habitantes encontra-se abaixo de 30 anos de idade. Enquanto no Japão, mais de 30% tem mais de 65 anos de idade.
3.3 Saúde e qualidade de vida
A expectativa de vida ao nascer na Índia permanece inferior à observada nos países desenvolvidos, refletindo desafios persistentes em saúde pública, saneamento básico e acesso a serviços médicos de qualidade. O Japão, por outro lado, apresenta uma das maiores esperanças de vida ao nascer do mundo, com indicadores de saúde altamente favoráveis e baixas taxas de mortalidade infantil.
A Índia continua tendo pela frente o desafio de transformar crescimento econômico, que leva em conta apenas aspectos quantitativos, indicados pela variação do PIB, em desenvolvimento, que além dos aspectos quantitativos, leva em conta também os qualitativos, indicados pela melhora do padrão de vida do grosso da população, incluindo fatores como saúde (esperança de vida ao nascer), educação (média de anos de escolaridade e anos esperados de escolaridade) e renda (Rendimento Nacional Bruto (RNB) per capita em PPC), variáveis utilizadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ao calcular o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
A semelhança entre Índia e Japão pode ser observada nas posições destacadas dos dois países asiáticos quando se considera apenas o PIB de cada um, todavia, se altera completamente quando se considera o IDH de cada nação. Em ranking do ano de 2023, divulgado pelo PNUD em 2025, o Japão ocupava o 23º lugar com IDH de 0,925, considerado muito alto, enquanto a Índia se encontrava apenas no 130º lugar, empatada com Bangladesh, com IDH de 0,685, considerado médio.
A combinação de elevado crescimento com manutenção de parcela significativa da população vivendo na pobreza não é recente e foi mostrada por Jean Drèze e Amartya Sen no livro Glória incerta: a Índia e suas contradições (Companhia das Letras, 2015). No livro, os autores procuram mostrar que o crescimento econômico pós-independência, embora com oscilações, foi robusto, principalmente a partir de 1990, quando ficou abaixo apenas do crescimento da China. O grande problema é que esse crescimento acelerado não foi acompanhado pela melhora dos indicadores sociais, já que a Índia permanece apresentando enormes desigualdades e níveis baixíssimos de saúde e de educação.
Referindo-se à diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento ressaltam Drèze e Sen (2015, p. 59):
“O desenvolvimento não é apenas o aumento de objetos inanimados de conveniência, tal como um crescimento do PIB (ou das rendas pessoais); tampouco é uma transformação geral do mundo à nossa volta, como a industrialização, o avanço tecnológico ou a modernização social. O desenvolvimento é, em última análise, o progresso da liberdade humana e da capacidade de levar um tipo de vida que as pessoas tenham razão para valorizar”.
Embora esse mesmo fenômeno possa ser encontrado em outros países da própria Ásia, da África e da América Latina, Drèze e Sen observam que o caso da Índia é único (2015, p. 236):
“Todos os países do mundo apresentam desigualdades de diversos tipos. Na Índia, entretanto, há uma mistura peculiar de divisões e disparidades. Poucas nações enfrentam desigualdades tão extremas em tantos aspectos, que se estendem desde os desequilíbrios econômicos até enormes disparidades de casta, classe e gênero. As castas desempenham um papel especial na distinção da Índia em relação ao resto do mundo”.
3.4 Padrão de vida e desigualdade socioeconômica
Apesar do grande volume de produção econômica, o PIB per capita indiano é muito baixo, com US$ 2.694 em 2024, indicando que a renda per capita da população ainda é limitada. No Japão, a elevada renda per capita, com US$ 32.487, reflete maior poder de compra, amplo acesso a bens e serviços essenciais e um padrão de vida mais alto.
A desigualdade socioeconômica na Índia é elevada e amplamente visível nos contrastes entre regiões, áreas urbanas e rurais, bem como no acesso desigual à renda, educação, saúde e infraestrutura básica.
Em contraste, o Japão apresenta níveis historicamente baixos de desigualdade, perceptíveis na relativa homogeneidade da renda, na ampla cobertura de serviços públicos de qualidade e na reduzida disparidade no acesso a oportunidades educacionais e sociais. Esse nível mais baixo de desigualdade do Japão comparativamente à Índia pode ser constatado ao observarmos o Índice de Gini dos dois países.
4. Novos dilemas
Se o Japão, como país reconhecidamente desenvolvido e dotado de tradições milenares, tem instituições consolidadas e uma população com hábitos e costumes bem definidos, a Índia, como país que procura fazer a transição para o desenvolvimento, mas que ainda apresenta uma série de deficiências, defronta-se com dilemas característicos de nações que passam por fases semelhantes.
Esther Duflo e Abhijit Banerjee, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2019, concentraram seus estudos e pesquisas no exame de países pobres e em desenvolvimento, notadamente em suas políticas públicas e sua eficácia.
Chamam a atenção para dilemas que a Índia, assim como outras nações que passam por esse tipo de transição, são obrigadas a enfrentar, uma vez que são situações que não estão presentes em países desenvolvidos, cuja realidade é bastante distinta.
No livro Lutar contra a pobreza (Zahar, 2022), Duflo enfatiza dilemas existentes em definições (ou indefinições) na área educacional, envolvendo desde aspectos estruturais relacionados a estratégias de ensino, como escolher entre matricular ou instruir, até questões ligadas à escolha de métodos de ensino e aprendizagem, bastante comuns em países com acentuadas desigualdades regionais como a Índia.
Já no livro Boa economia para tempos difíceis (Zahar, 2020), Duflo e Banerjee destacam dilemas típicos de países que estão prestes a se transformar em desenvolvidos, cujos habitantes e governos passam a se defrontar com situações até então desconhecidas.
À medida que os países pobres ficam mais ricos, suas populações passam a dispor de mais recursos, suficientes para lhes permitir a aquisição de produtos até então inacessíveis como, por exemplo, condicionadores de ar.
Como assinalam Duflo e Banerjee (2020, p. 261):
“No entanto, o ar-condicionado em si agrava o aquecimento global. Os gases de hidrofluorcarboneto (HFC) utilizados em aparelhos de ar-condicionado comuns exercem um impacto extremamente prejudicial sobre o clima; são muito mais perigosos que o CO2. Isso nos deixa numa situação um tanto difícil. A mesma tecnologia que pode ajudar a proteger as pessoas contra a mudança climática também a acelera. Os novos condicionadores de ar que não usam HFC poluem menos, mas, por ora, são muito mais caros”.
Tendo em vista o caso específico da Índia, prosseguem examinando o seguinte dilema (2020, p. 261):
“Um país como a Índia, que está prestes a ser capaz de adquirir aparelhos de ar-condicionado mais baratos, enfrenta, assim, um conflito especialmente difícil: salvar vidas hoje ou atenuar a mudança climática para salvar vidas no futuro”.
5. Oportunidades para o Brasil
A comparação entre Índia e Japão oferece pelo menos quatro importantes lições estratégicas para o Brasil, a décima primeira maior economia do mundo, com um PIB nominal de US$ 2,1 trilhões:
- i) Inovação e educação: Investimentos estruturais em educação básica, técnica e superior são fundamentais para elevar a produtividade e reduzir desigualdades;
- ii) Políticas para a juventude: A experiência indiana evidencia o potencial econômico de uma população jovem, desde que acompanhada de políticas públicas eficazes;
iii) Reformas estruturais: Modernização da infraestrutura, do sistema educacional e da saúde pública são essenciais para maior inserção do Brasil nas cadeias globais de valor;
- iv) Cooperação internacional: Parcerias com economias emergentes, como a Índia, e desenvolvidas, como o Japão, podem impulsionar setores estratégicos, como tecnologia, agricultura sustentável, energia limpa e digitalização.
6. Considerações finais
Finalizando, a ascensão econômica da Índia demonstra como crescimento populacional e dinamismo econômico podem gerar impacto global, mesmo diante de desafios sociais relevantes. O Japão, por sua vez, reafirma que desenvolvimento humano muito elevado, educação de qualidade e infraestrutura avançada são pilares fundamentais para a construção de uma economia avançada e inovadora.
A análise conjunta desses dois países asiáticos reforça que o crescimento econômico sustentável depende não apenas do tamanho da economia, mas, sobretudo, da qualidade do capital humano. A Índia caminha para ser a terceira maior economia do mundo, superando a Alemanha, a economia mais rica da Europa, nos próximos anos
[1] Artigo escrito em parceria com o economista Paulo Galvão Júnior, economista pela UFPB e especialista em Gestão de RH pela UNINTER. Autor de 18 e-Books de Economia. Autor e co-autor de mais de 400 artigos de Economia. Foi professor de Economia e de Economia Brasileira no UNIESP. Eleito Economista do Ano 2019 e Professor de Economia do Ano 2023 na Paraíba pelo Corecon-PB. É conselheiro efetivo do Corecon-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana.
[2] Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM – Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e consultor da Fundação Espaço Democrático. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.



