Aluno apático: mais desafios do que o “bagunceiro”

Aluno apático: mais desafios do que o “bagunceiro”

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Vinícius de Andrade
Vinícius de Andrade

ColunaVozes da Educação

29 de fevereiro de 2024
Lutar para buscar a atenção dos estudantes mais agitados é algo possível. No entanto, há pouco a se fazer para atrair o interesse de quem odeia estar na escola.

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Alunos durante aula
Participação ativa dos alunos precisa ser valorizadaFoto: José Aldenir/TheNEWS2/Zuma/picture Alliance

Muito se fala sobre aqueles alunos que fazem bagunça, que falam muito e demoram para se concentrar nas aulas. No entanto, tem um outro perfil, pouco falado, que acredito ser ainda mais desafiador: o aluno apático.
Já visitei centenas de salas de aula de ensino médio, em mais de 100 colégios de dez estados diferentes, e digo com toda a certeza: meus maiores desafios não foram com turmas de alunos que falam bastante, que se distraem facilmente e apresentam dificuldades para se concentre, mas sim com turmas compostas totalmente por estudantes apáticos.
Não sou só essa percepção. Falei com vários professores que afirmaram preferir alunos “bagunceiros” do que aqueles apáticos.
É natural entrarmos em salas de aula com alguns alunos mais “agitados”, que falam bastante, gostam de “fazer graça” ou que se juntam em clubes de conversa. Eu mesmo enquanto aluno era um que gostava muito de conversar e às vezes solicitado de um puxão de orelha dos professores. Com turmas assim ainda há margem para trabalhar. Dá para encontrar formas e estratégias para prender a atenção dos alunos e envolvê-los com o conteúdo exposto.
Por favor, não interpretem como uma romantização ou naturalização da indisciplina. Concordo que há casos de falta de respeito que advertências de advertência e que não podem ser naturalizados, mas o cenário que tentei pintar foi o usual médio de uma sala de aula, em que o silêncio absoluto contínuo é tão utópico que nem é mais eficiente almejar ele. Além disso, nem deve ser um cenário procurado, pois a participação ativa dos alunos precisa ser valorizada.
Agora, indo para o outro oposto, é surpreendentemente mais solicitado trabalhar com salas compostas exclusivamente ou majoritariamente por alunos apáticos. Falando friamente, a sensação é de que não há mais “vida”, “faísca” ou margem para trabalhar com aqueles alunos.
Lembro-me de uma vez que estava falando em uma turma. Não houve problemas de conversas paralelas ou bagunça. O silêncio reinava, mas ainda assim minha fala era extremamente difícil e desafiadora. Em determinado momento, observei a turma e simplesmente nenhum dos alunos estava olhando para mim. Cada um olha para um ponto e nenhum para mim. Me senti tão triste, era como se eles não me quisessem ali de alguma forma e me pareceu que eu estava, sobretudo, os incomodando.
Isso já aconteceu em outras turmas e é sempre um desafio gigante, mas diferente das turmas “alegres” demais. Explico: lutar para buscar a atenção da turma no início, para atenuar uma distração durante ou chamar a atenção de um aluno ou grupo que está realmente prejudicando a exposição do conteúdo, são lutas possíveis de serem realizadas.

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Luta quase impossível

Agora como fazer alguém preste atenção quando esse está nitidamente odiando estar naquele espaço e está tão desmotivado que já não tem nem mais energia para fazer cara feia? Os mais otimistas irão dizer que há formas de nos interessar e fazer se sentirem parte, e concordo. Para muitos há sim essa para margem de trabalho e possibilidade, mas para outros, infelizmente, temo que há muito pouco que se possa fazer.
Eu falo em várias turmas e de forma muito pontual. Me solidarizo com os professores que simplesmente trabalham com turmas assim durante o ano todo. É um sentimento de frustração, com tristeza, com empatia, com desapontamento que, juntos, podem desmotivar muito o trabalho docente.
Imagina se preparar para fazer um bom trabalho, pensar em formas de inovar, estar sempre se atualizando para entrar numa turma que ninguém nem olha para sua cara? E nem é porque sua aula é desinteressante, pois simplesmente nem te deram uma oportunidade. É uma situação desafiadora demais.

Desconexão emocional com o ambiente escolar

Nessa parte final do texto, vale voltar a discussão para: o que torna um aluno assim? Tenho minha teoria e você, leitor, como sempre, está convidado a pensar diferente e trazer outros pontos de vista.
Tenho um sobrinho que simplesmente não gosta da escola. Ele está no segundo ano do ensino médio em um colégio público e, mesmo tendo um tio que está no ambiente de educação, simplesmente não vê sentido algum na escola. Claro, no caso dele também tem preguiça envolvida e o vício em jogos e no celular, mas precisamos também considerar uma provação: a escola fala com ele? O ambiente ou faz você se sentir parte?
Saindo do caso particular do meu sobrinho, é difícil apontar uma razão específica, mas acreditar que a raiz está na completa desconexão emocional com o ambiente escolar. Para alguns, já faz anos que simplesmente vão apenas por ir. Para outras, questões pontuais, como problemas familiares, questões pessoais e dificuldades para conciliar trabalho com estudo, vão os afastar emocionalmente da escola.
Acredito que uma chance de sucesso em resgatar esses alunos está diretamente relacionada ao tempo que estão desconectados com o colégio. Por exemplo: voltar a animar um aluno que vai na escola só por ir já há mais de um ano é um desafio gigante. Esse fato só reforça o quanto os professores precisam de ajuda.
É urgente e necessária uma equipe multidisciplinar capacitada dentro de todas as escolas públicas do Brasil. Essa equipe precisa contar, especialmente, com profissionais da psicologia que poderão ser agentes importantes para as questões apontadas.
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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntariado que auxilia alunos da rede pública do Brasil a ingressar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, os alunos auxiliados pela Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1
Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente da DW .

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